quinta-feira, 8 de março de 2012

Outros Sonetos Meus III

Outros Sonetos Meus III

1
Tanta dor para o amor parece nada.
É a mágoa que fere a minha alma.
Nada fazes. O pôr-do-sol me acalma.
Mas, findando, estou triste e vejo em cada

Luz de estrela um negror frente à calada
De uma noite que fere e põe na palma
Da mão tudo o que tenho. E eis o trauma
Que me traga na’estrada. Triste estrada!

É a brisa fugaz. É o meu pranto.
Pode ser que não seja desencanto.
Mas encanto não é. Vê o punhal!

É o vento que sopra. A dor febril.
A canção que deflagra o clima hostil.
O porquê desse mal. Chama infernal!
2
Aparece a aurora. Em mim trafega
A tristeza do dia que inicia.
Oh, deixai-me cantar, que a brisa fria
Me incentiva a cantar. A hora é cega.

Quem padece, lamenta a luz que alega
Um começo que traz desalegria.
Como é triste o desfecho da’energia
Que o momento noturno em si carrega!

Quero a cama. Me deito pra não ver
A manhã que insiste em me dizer
Que o meu canto boêmio arrefeceu.

É a dor me ofertando o que não quis.
É o choro que vem. Hora infeliz
Que “opaquece de luz” o sonho meu.
3
A espada que corta o peito meu.
A estrada sem fim que me extenua.
Canto vil da manhã que se acentua.
Oh, desgraça de luz que corta o breu!

Vaga a alma buscando o leito seu.
Quer dormir. Não suporta a face nua
Do “astro-rei” que machuca a face sua.
Quer dormir. E eis que já adormeceu!

Quando a noite chegar, há, com certeza
De acordar pra viver em meio à mesa
De prazeres que a mesma lhe oferece.

É a mágoa do dia... Mas, a treva
Que há na noite, destrói a luz que eleva
A angústia que ao bardo o mal fornece.
4
É a asa dos ventos. É a brisa.
Clama a paz. A ventura em voz ressoa.
Ave negra de noite que abençoa
O porvir. Colo frio que o eterniza.

Frase dita. Canção. Prece concisa.
É a noite. É a fé que sobrevoa
Ares faltos de crença que afeiçoa
O presente ao prazer de que precisa.

Casta paz. É a paz. Marca que deixa
Uma marca de alento em quem enfeixa
Fantasias pra si em meio ao caos.

Basta a paz. Essa paz. Barca que leva
Corações a pulsarem, se os enleva
E abandona no cais os planos maus.
5
Treme a clava. O desejo deperece.
É o corpo que perde a confiança
Em si mesmo. O cruor da triste dança.
O vagar da visão que se opaquece.

Faltam muitas virtudes em quem desce
Aos frissons da descrença. Há abastança
De caprichos insanos. Há cobrança.
Pagamentos não há. E a vida esquece.

Tola estrada. Lamentos. Pesadelos.
É a vã solidão entre os cabelos
Da peruca tecida pelos anos.

A costura esgarçou. Não há sorrisos.
É a vala que espera. Os “inconsisos”
Zelos bobos. Os ais e os desenganos.
6
Face triste. Motivo de pedir
Pra ficar. A razão que se desfaz.
A barcaça que vai. Vento que traz
Forte sono. É a cama a consentir.

Um adeus. Oh, que dor a persistir!
Lentas horas. O cais. Tristonho cais!
É a dor provocada pelos ais.
É o azar de viver. De não partir.

Um aceno. Uma crise. Vaga prece.
Uma flor despetala. O ser padece.
O conflito por dentro ficará.

É a mágoa que fere. Algo por dentro.
Algo vil. Oh desmando! Um epicentro
De aflições que no peito há tempos “há”.
7
Não é justo! Mas vejo que é maior.
Nada há pra fazer. Nada a falar.
Caos e erros. Conflitos. Lupanar
De “deploros”(^). E o resto eu sei de cor(´).

Esperanças não há. E o melhor
É ficar impassível. Sossegar.
Tantos planos... Somente vaguear...
Vaguear... Caminhar sem pormenor.

Tela opaca. Lamento. Pranto e chão.
Céu de estrelas escuras. Aflição
Que incentiva a sentir. Morre o porvir.

É a negra demanda da’existência.
É a vaga aventura da’ excrescência
De um viver que não pede pra’existir.
8
O encanto sumiu. Vaga a ventura.
Desespero que gera o desapego.
Mão que solta o que quis. Desassossego.
Lenta carga de dor. Vaga procura.

Tenha pena! Mas tudo é amargura.
O que faço, o que digo é fraco ofego (^).
O que penso é inútil. O aconchego
Não existe. E o que há é treva escura.

Barca cheia, vazia de prazeres.
Cheia lua. Porfia de quereres.
Vela atroz e funesta do presente.

Gás mortal. O que finda traz à lama
O que sonha, o’inocente que com fama
Inda insiste em sonhar. Pobre inocente!
9
Só em mente eu revivo os bons momentos.
Primaveras são curtas estações.
E o que fica de tudo são visões.
E o que fica em meu ser gera tormentos.

O que a vida me oferta são lamentos.
Os remédios não servem. Prescrições
São inúteis diante de emoções
Tão vivazes e más. Vis desalentos.

O capricho de antes se tornou
Uma vã fantasia. O que ficou
Foi a dor que persegue a criatura.

Os antigos intentos se deixaram
Consumir pelos novos, que se amparam
Nas lembranças. E a alma quebra a jura.
10
Um inverno de risos se passou.
E a certeza é que tudo se fará
Enfadonho. Você me deixará,
Já que as férias se vão. Mas eu não vou.

Estações passageiras! O que estou
A fazer? O que digo? O que haverá?
Senão um longo adeus que ficará?
Senão dores co’as quais eu não me dou?

Vai-se o tempo. Você se vai também.
Se recordo momentos, o que vem
Ao meu ser não são risos, mas penar.

Eu queria pedir pra que você
Não se vá. Mas apenas o porquê
De partir é razão pra não ficar.
11
Minha festa não tem tanto esplendor.
Este quarto é meu mundo. E eu já sei
O que dizem de mim. Mas não mudei.
Queres ver-me, verás a mesma dor.

Queres ter-me, terás o mesmo amor.
Mas, talvez, não mais venhas. Eu fiquei
Como sempre. Eu não quis mudar. E hei
De ficar assim mesmo sem me expor.

Sei que esperas mudanças. Fique bem.
Não se importe comigo, que o que vem
Pela frente virá pra o meu avanço.

Um adeus. Não lamente o meu estado.
Fique bem. Não demonstre algum cuidado.
Estou bem. E hoje o dia é de descanso.
12
O quintal está cheio de lembranças.
A varanda não é “de todo” a mesma.
Ventos fortes de outono. O abantesma
Que procura assombrar-me co’as mudanças.

Olho o quarto. O que vejo são cobranças
De um tempo que roja como a lesma
E que quer reaver a mesma “resma”
De momentos de outrora sem tardanças.

O pendor é de choro. O mal das horas.
O interno conflito. Alvas auroras
De negrura ventral. Internas crises.

É o tempo que impede... A dor suprime
Os sorrisos presentes e oprime
Os que tentam, por fim, serem felizes.
13
Cerimônias de risos. É o show
De alegrias da vida. E tu estás
Nesse palco de luzes, onde hás
De cantar do viver o que mudou.

Hoje longe, susténs o que tornou
O teu ser mais feliz. Ainda dás
Tempo ao tempo como antes era, mas
No presente você se transformou.

Não adianta dizer que não pra mim.
Todavia, se estás tão bem, ao fim,
O que resta é te dar os parabéns.

Vá, querida. Mas não se preocupe.
Estou bem. Vá em paz. Não se “desculpe”!
Curta os novos amigos que hoje tens!
14
O segredo de tudo é que, ao final,
O que importa é se tens algo melhor
Pra mostrar. Algo bom. Algo maior!
As riquezas te fazem mais “legal”.

O que tens embevece o pessoal.
O que tens te promove do menor
Ao maior patamar. Põe ao redor
De ti muitos. É algo sem igual!

Te regala! Te enleva! Alça o teu vôo
Não te importes com nada, que o teu show
Não mais pode faltar. Parar não pode.

Há mulheres em volta. Tudo é teu!
Há ofertas sem fim. Você venceu!
Mas o pobre que vês, ninguém acode!
15
Tudo acaba. É preciso dá adeus.
E o fim vem pra causar “desacalanto”.
As jornadas se findam. E é o pranto
Que parece sem fim entre apogeus.

Glórias passam. Se vão. E é nos breus
Da estrada que se acha o desencanto
Que insidia o’existir e traz quebranto
Para os dias felizes teus e meus.

Vão-se risos. Acabam-se estações.
Dão-se casos que evocam emoções
Nada boas. E a vida fica vã.

Não há nada de bom. O fim se achega.
Vaga o ser. E a dor se aconchega
Sobre o peito e faz da’alma o seu divã.
16
Tanto tempo perdido! Tolos planos!
Nuvens ralas. O céu não é mais nosso.
Vão-se as aves. E tudo o que eu posso
Encontrar do que fiz são vagos anos.

Estações sem propósito. Muitos danos!
Muitos erros! E a vida que hoje esboço
É de choro. Do riso eu não me aposso.
Do prazer. Mas recordo os desenganos.

Seca a grama. E a flor perde o verdor.
Sopra o vento que traz o dissabor
De lembrar os tropeços da jornada.

Pôr-do-sol de amargor. Festa sem dança.
Tez ferida. Deslizes sem mudança.
E uma morte, por fim, já esperada.
17
A canção silencia. Pára o vento.
O navio que se perde, não retorna.
Chuvas cessam. Negrura que contorna
O viver. Essa não cessa um momento.

Primavera no fim. O sofrimento
No início. O prazer sem o que o torna
Infinito. A lembrança que transtorna.
O abismo. A distância. Desalento.

Frases vagas. A vida que suspira.
Um arquejo sem força. Uma mentira
De que tudo virá a ficar bem.

A’ilusão que acaba. A desventura.
Alma inquieta. É o fim da criatura
Que pensava poder ir mais além.




Outros Sonetos - 2º Parte

1
Quando a gente encontrar razões pra rir,
Eu irei te dizer com que é que sonho.
Amanhece, anoitece em ar tristonho.
Deixa a vida mudar e hás de me ouvir.

Quando a gente puder se permitir
Ter ao menos o básico que proponho,
Talvez possas me ver bem mais risonho.
Talvez tudo transmute o existir.

Toma o trem. Inda é cedo pra sonhar.
Sonharei eu sozinho. Sei que o lar
Inda fica na mesma rua triste.

Se voltares, então meu desengano
Se fará só engano. E esse é plano!
Só que a dor desta vida ainda insiste.
2
Alguns pensam ser eu um descabido.
Mas sou só mais um cara realista.
Se se apagam as luzes, eis a pista
Posta em trevas. Não há outro sentido!

E, se a vida apresenta o mais descrido
Parecer, eu não vou ser populista.
Que descordem de mim! Isso é simplista,
Mas a pura verdade, e sem partido.

Os asseclas me vão dizer bobagens.
Nada mais a ouvir! Suas roupagens
Opulentas não compram meu saber.

Sigo inócuo por campos já vazios.
Vejo a norte o sossego dos bravios.
Tenho a frente o sossego do prazer.
3
Ando bem, mas me iludo quando rio.
Eis o tempo pra vir pôr fim em tudo.
Melhor fora ficar parado e mudo
Que encontrar alegria em ar vazio.

Mas, ainda que queira, meu estio
É chuvoso. E o erro faz-se escudo.
Nada é nada. Prossigo inda “sisudo”,
Mas o flerte do acaso é arredio.

Um prazer, uma chance, a fantasia...
Mas, ao fim, tudo é dor, que o dia-a-dia
É um “antro” de mágoas e pesar.

“Finda tudo na mesma. Entenda isso!”
Sei que finda, mas sempre submisso
Eu estou ao prazer do “lupanar”.
4
Quem te disse pra seres infeliz?
Quem falou pra sorrires nesta vida?
Olha tudo e contempla a dor sentida
Pelo tudo que intenta planos vis.

Eis os porcos e as garças, os ardis.
O alvor nada tem da’embraquecida
Sã pureza dos céus, a sã guarida
Da Verdade, que, o mal ver, nunca quis.

Tudo bem, sei que sigo a minha estrada.
Sei que insisto, apesar da caminhada
Ser bastante propensa à confusão.

Tenha calma! Que a simples a consciência
Do sofrer não destrói a insistência
De viver, apesar da ilusão.
5
Tudo acaba. Findou! Se foi! E onde
Acharás algo eterno? Só Jesus.
Tudo esgota. Acabou! E onde é que eu pus
Meus sapatos à tarde? Me responde!

Onde estava o teu riso? Corresponde
Ao vazio desta vida que reluz
Por um pouco de tempo e nos conduz
A’ilusão que, no errado, o certo esconde.

Tudo bem, há prazer nesta existência.
E eu não teimo perante a consciência
Dos sorrisos efêmeros do existir.

Mas se tudo é “doente” e passageiro,
Como irei me alegrar? Se, de janeiro
A janeiro, inda há dor a persistir?
6
Vou à rua buscando distrair-me.
Mas, em tudo, o esplim se faz presente.
Digo ser diferente, e diferente
Deveria dizer pra corrigir-me.

Eis que tudo é só tédio a consentir-me
Vis momentos de vida impertinente.
Tudo é dor! E se omite o ser que mente
Pra si mesmo, a sorrir, pra iludir-me.

Vendo o caos do silêncio, permaneço
Lamentando. E é forte o que padeço.
O meu peito mal bate. O sangue é frio.

É nos olhos do tempo que virá
Que eu pretendo encontrar o que irá
Transformar este mundo tão vazio.
7
A caminho de casa eu me incentivo
A pensar sobre a vida e localizo
Uma idéia perdida ante o que viso
Responder. Meu silêncio é decisivo.

Há estrelas no céu. E eu, impulsivo,
Me inclino aos meus planos. Já diviso
Uma luz ante as trevas. Somatizo
O que a fé traz à mente. Eis que preciso*.

Foco dias de paz. Faróis à frente.
Marco datas. Feliz sou, tão-somente
Ponho em prática alvos sonhos que esqueci.

Se me lembro, sorrio. Tenho a certeza
Que estarei bem. E o prêmio é a “surpresa”
Que o porvir me reserva, e em sonhos vi.
8
Meus dezembros passaram. E os janeiros
São tristonhos demais pra que eu sorria.
Olho’a’estrada: O caminho é de agonia.
Olho o céu: Há sorrisos passageiros.

Nada fica. Os deleites prazenteiros
São fugazes demais pra que eu, em dia
Tão veloz, me desvie da alegria
Que é buscar por prazeres sobranceiros.

O pulsar desta vida é subalterno
À vil exigüidade. O ar eterno
Só se inspira em uma outra atmosfera.

As canções já não duram. Filmes belos.
Tudo é fraco e fugaz “feito” os anelos
Desta vida, assassina da quimera.
9
Queres mais. Dá pra ver no teu olhar.
O que queres é grande como os céus.
Te entristeces. Não tens. Nem os troféus
Que ganhaste puderam-te aplacar.

Agonia é não ter. Tens um pesar
Por não teres. E os sonhos, como réus,
São trazidos a júri. Os escarcéus
São desejos sonhados ao luar.

Já não dormes. Não andas. Não há dia.
E a tarde, o que é? “Desalegria”!
O viver o que é? “Desaventura”!

Morrerás logo, logo. Inda que cem
Anos vivas. Não há paz em ninguém
Que não tem o que quer. “A vida é dura!”
10
Um balé de tristezas se apresenta
No palanque da vida do que tem
Um viver por viver e não se atém
À certeza da fé que o ser sustenta.

Perfeições não existem na sedenta
Existência em que vives. Não há quem
Possa vê-la. Porém o ser mantém
O desejo de tê-la (e não se isenta!).

“Indifere” o negar, que o coração
Não se nega a visar a perfeição.
É desejo de todos. Dentro está.

Vaga a mente à procura de conforto.
Não encontra. E desfecha em absorto
Desalento que não se findará.
11
Como olhar para a vida co’outros olhos?
Eis a dor adiante. O desprazer.
Um tormento sem fim. Tudo é viver
Sempre imerso de mágoas e de abrolhos.

Há amor de mulher. Mas há escolhos
Até nesse. O desfecho é o sofrer.
Há riquezas. Porém todo poder
Não é mais do que palha atada em molhos.

Nem riqueza e “status” podem dar
Um prazer sempiterno nem doar
Um sentido moral à existência.

Volta o feno ao seu feixe. O peito ao choro.
O viver ao sepulcro. O vil “deploro (^)”
Aos instantes fugazes de vivência.
12
Ricos riem. E a plebe se lastima.
Todos querem fartura. Isso é comum!
Mas há dias de dor pra qualquer um.
Não se foge. Não há quem a suprima.

Pra que a vida do ser não se exima
Do sofrer, não existe ser nenhum
Que não queira demais. E há sempre algum
Vão desejo que muito o subestima.

Um desejo, um querer, um vago anseio...
Sempre há um. Outros vêm. E eis o receio
De não ter o que almeja o ser inquieto.

Ficar sem é penar. Mas ficar com
Não te basta, porque não há tão bom
Que não possa ser mais alto e completo.
13
A vontade é a mola do viver.
O querer predomina em qualquer vida.
É de anseios que vives. Eis a lida.
Tudo é dor. Opções, o desprazer.

Farás tu certa escolha? O teu sofrer
Já precede o teu erro. E a guarida
Do penar é a dúvida permitida
Pela vida cruel que aflige o ser.

Nem poemas, nem cânticos, nem luxúria...
Nada pode isentar-te da lamúria
Desta vida sedenta e sem sentido.

Eis aí o porquê de haver um Deus
De justiça perfeita... Mas só teus
Planos bobos não têm te convencido!

RF Amaral

Outros Sonetos Meus

1
Decidi viajar pra capital
Por querer ver a zona litorânea.
Hospedei-me em um prédio, e a instantânea
Paz dali fez-me bem mais que o normal.

Fui à orla marítima tendo o aval
Da vontade que, em mim, fez-se espontânea.
Eu, forânea pessoa, em sucedânea
Terra longe do meu torrão natal...

Vi as ondas, andei no calçadão,
Avistei um farol, e enchi a mão
De um punhado de areia e o pus no bolso.

Pois gastei muita grana em dias plenos.
E o punhado de areia pelo menos,
Ao partir, me serviu de reembolso.

2
Era noite e perdido eu me encontrei
Numa mata fechada ao acordar...
Uivos, sopros da brisa, alvo luar,
Medo e assombros noturnos vis que achei...

Caminhei, caminhei e caminhei...
E uma tímida clareira eu pude achar
Já perdida também por se encontrar
Em floresta tão negra; e ali parei...

Vi que luzes havia nela acesas.
Uma casa avistei; e, indefesas
Aberturas por onde a luz passava.

Ao olhar o luar, pensei em ir
Adentrando o recinto pra fugir
Da frieza que ali eu enfrentava.

3
Mergulhei em um mar de águas azuis
Procurando momentos de descanso.
Vi cardumes, baleias no remanso,
Polvos e algas, que o mar muito produz.

As enguias mostravam sua luz,
Os corais sempre brancos nesse avanço
De buscar ver bem mais sob o balanço
Da maré que a barcaça ao cais conduz.

Mas, ao fim, assustei-me ao divisar
Uma vil água-viva a me “encarar”,
Perseguindo quem nunca um mal lhe fez.

Eu tentei me livrar, mas foi em vão,
Que ela, ao vir, agarrou-me pela mão
E “levou-me” pra o fundo de uma vez.

4
Fui a terras distantes pra buscar
Um amor que perdi por vil destino.
Enfrentei grandes monstros, desatino
Que não deu pra não ter nem evitar.

Lobos, cobras gigantes e avatar
Que reinava do modo mais cretino,
Massacrando os plebeus, mas ao grã-fino
Dando ordens expressas pra’os matar.

E, no fim das batalhas, pude ter
Minha amada de volta e conceder
Aos plebeus alforria e liberdade.

Hoje vivo em um reino onde a justiça
Não se cansa de agir nem desperdiça
As palavras de ordem da verdade.

5
Onde eu moro os casebres se aglomeram,
Mas as ruas estão sempre asseadas,
Avenidas e estradas asfaltadas,
Becos claros e vilas que prosperam...

Há beleza nos ares bons que geram
Bem-estar arejando as madrugadas,
Lindas flores que são sempre regadas,
Panoramas de paz que não se alteram...

E eu, que sempre passeio em fim de tarde,
Vou buscar meu amor pra, sem alarde,
Namorar frente ao lago das gaivotas.

Abraçando o seu corpo de sereia,
Sinto o toque do amor que entremeia
Nós dois qual semitom que une as notas.

6
Habitei numa vila bem distante,
Mas que era pra mim tudo que eu quis.
Nessa vila eu me achava tão feliz,
Porém tive que vir a ser errante.

Profissão de caixeiro viajante,
Um salário de fome. E assim desfiz
O meu mundo de riso e, infeliz,
Fui morar noutro canto por desplante.

Quis ganhar muitos bens, fiquei sem nada
De isso tudo que vejo que me agrada,
Todavia não tenho em meu poder...

Tão distante, tão velho, tão doente,
Não consigo partir pra novamente
Ver a vila que, em paz, me viu crescer.

7
Fim de ano eu parti para Paris.
Fui atrás de sorriso, brinde e festa.
Encontrei-me animado. E o que me resta
É lembrar o que ali me fez feliz.

Passeei pelas ruas como quis.
Conheci lindas moças com modesta
Compostura e pensei de forma honesta
Em propor-lhes jantar, mas não o fiz.

Ante as praças centrais me vi cantando.
Ante as lojas me achei sempre pensando
Em comprar algo novo, e não poupei.

E, por fim, na contagem regressiva
Pra o desfecho do ano, eu gritei: Viva!
E no dia seguinte eu retornei.

8
Vem a noite, e o espaço escurecido
Satisfaz-me os sentidos por completo.
Impressiono-me muito com’o projeto
Tenebroso que à noite é construído.

Saio à rua pra vê-lo com’o sentido
Da visão bem mais livre, que é correto
Dispensar uma brecha que há no teto,
Pra poder ver o céu desimpedido.

Olho estrela, olho lua, olho a nuance
Do negrume que há fora do alcance
Dos negrumes que possam existir...

É o dedo de Deus que pinta a tela;
E não há um painel de cor mais bela
Que o das trevas que o céu vem exibir.

9
Tenho medo, mas tenho medo assim,
Sem ter medo do medo o qual eu tenho.
Pois que tenho temor, mas não retenho
No meu ser um temor vil e sem fim.

Dê-me um tempo, e eu explico sem esplim.
Que o meu medo é vital pra o desempenho
Do labor de falar do céu que venho
Toda noite a fitar como antes vim.

O temor natural me inspira a alma,
Faz do “clima” um mistério que me acalma
E amedronta, mas só devido ao plectro.

Não há nada na noite que não venha
Pra fazer-me mais quieto e que não tenha
Poesia entranhada em seu espectro.

10
O sombrio devaneio que o noturno
Espetáculo celeste nos oferta
É repleto do dom da paz referta
De sossego que falta ao céu diurno.

Que há nas trevas um som baixo e soturno,
Mas que toca o poeta que liberta
Sua mente pra ter, na hora certa,
A’impressão de escutá-lo em pleno turno.

Pois que, embora medonha e taciturna
Toda noite pareça, algo se enfurna
De sonoro no seu interior.

Toda noite é por Deus abençoada,
Que é na noite que o vate encontra estada
Pra dormir e sonhar com seu amor.

11
No sossego noturno a paz se instala
Como um vírus no sangue inoculado.
Só que, em vez de matar, muda o estado
Do que sofre o contágio e não se abala.

Torna o ser mais feliz, mas não propala
Alegria ao que odeia o tom ornado
De sossego da noite e, chateado,
Faz no espectro do sol a sua sala.

Agradeço a Jesus quando anoitece,
Pois, pra mim, toda noite se parece
Co’um painel que com nada é parecido...

Se existir neste mundo algo mais belo,
Só se for a pintura do Castelo
De Deus Pai, pois só disso eu não duvido.

RF Amaral

Alguns Sonetos (Meu lado lírico de volta à baila!)

Apenas Sonetos – Por RF Amaral

1
Quando a noite aparece, eu te procuro
Pelas ruas, buscando a alegria
Que fazia meu ser a cada dia
Bem mais vivo, mais ser... bem mais seguro.
“Onde estás?” Me pergunto. E, imaturo,
Só encontro exaspero e agonia...
Mas se fora, afinal, eu que apatia
Demonstrara, não sei por que o apuro!
Entristeço. Me sento em um dos bancos
Que há na rua. E, em pensamentos francos,
Me procuro acalmar, me convencer...
Estás longe. Não mais retornarás.
E, sorvendo o meu pranto, encontro paz,
Conformado co’a dor do meu viver.
2 “
Onde está o amor da minha vida?”
“Onde anda o motivo da saudade
Que, crescendo em meu peito, a alma invade?”
Alto exclamo, ao “achar” a paz perdida.
Se momentos recordo, mas saída
Decisiva pra dor eu, na verdade,
Não encontro, que a vil realidade
Me desperta pr’angústia a ser vivida.
Lacrimejam os olhos. Dói demais!
Que a vil realidade soma aos ais
Já antigos, mais novas aflições.
Escurece o porvir. Nem adianta
Apelar pra ilusão que a tudo encanta,
Porque a dor sempre ofusca as ilusões.
3
Deixa a chuva levar a dor que sinto.
Deixa que eu me encaminhe ao mais distante
Descampado e me afogue na constante
E rompante caudal desse ar distinto.
Mas a chuva não leva a dor. E eu minto
Pra tentar enganar o meu errante
Coração que se afoga e não garante
Continuar a bater... e até consinto!
Sou tristonho. O meu tempo é de temores.
Vida em dor. Perdedor entre os amores
Que a lembrança atribui ao coração.
Eis a rua vazia. E o peito cheio
De cruéis desventuras. Devaneio
Que permuta a razão pela’emoção.
4
Corro atrás de um futuro mais bondoso
Com’o meu ser, que não sabe o que é sorrir.
O presente é tristonho. O existir.
Meu viver necessita de algum gozo.
O passado me trouxe um desditoso
Florilégio de dores. Quis fugir,
Mas não pude sair. Quero insistir,
Mas vislumbro um futuro doloroso.
Todavia, se a fé adiantar,
Pode ser que consiga me encontrar
Em destino ao prazer que nunca tive.
Digo ao ser: - Continue! A vida é dor,
Mas um dia haverás de ver dulçor.
Só prossiga e da’estrada não se prive!
5
Meu amor, como é árdua a existência
Sem você por aqui pra me alentar.
Não há luzes no céu. Amor no ar.
Paz. Enfim, algum bem na convivência.
Tudo é dor! Meu amor, a residência
Perde a cor sem você. Não há lugar
Pra sorrisos. E o choro alaga o lar
Onde risos faziam permanência.
Mas, agora, sem ti, o coração
Entra em crise. E a revel dissolução
Toma conta da mente todo instante.
Soluções não se vêem. Cadê a graça?
Facilmente a lembrança me transpassa;
Diariamente o sofrer é mais flagrante.
6
Onde está o meu bem? A vida passa!
Tenho em frente um porvir ainda incerto.
Onde que ela se esconde? Se for perto,
Me informe o local. E o mal desfaça.
Já busquei com afinco. Mas a graça
De encontrar um amor de paz referto
Se desfez na angústia. Algo encoberto
Me impediu de encontrá-lo. E o mal me enlaça.
Apareça, você! Seja quem for!
Bom seria uma vida de amor.
Onde andas? Tu foges, ou sou eu?
Mas, se grito, comprovo que não sou...
Ó destino cruel! Sozinho estou.
E a estrada da vida é puro breu.
7
O segredo nos olhos do meu bem
Tinha um rasgo de dor e sobressalto.
Vil torpor. Fui tomado de assalto.
Sua morte “matou a mim” também.
Eu agora caminho sem ninguém
Pra falar-me de paz. Convivo falto
De alegria, inundando o breu do asfalto
Com’o meu pranto. E socorro algum me vem.
Quando a noite me lembra o meu amor,
Só me resta chorar. Soluço em dor.
“E o que faço?” Sem forças, me interrogo.
A barcaça dos risos me deixou.
E o navio das saudades atracou
No’oceano de choro em que me afogo.
8
Há mudanças de vida ao meu redor.
Me parece que tudo está bem mais
Inclinado que eu às sazonais
Mutações. E eu me vejo bem pior.
Me pareço obrigado a ver melhor
Existência através de tantos ais.
Desistir vem à mente. São as tais
Influências pairando em derredor.
Mas prossigo, apesar dos empecilhos,
A fitar o’horizonte em largos trilhos.
O porvir que a Verdade me reserva.
Sigo crendo no êxito da Justiça.
Fecho os olhos à dor. Sigo a premissa
Do sucesso. E é a fé que me preserva.
9
Olho ruas vazias. Corro atrás
De um alguém que me ama, mas insiste
Em fazer sua vida um palco triste
Onde chora o palhaço e o riso jaz.
Mas caminho, sabendo que quem faz
O possível pra ter e, em fé persiste,
Finda tendo o que almeja, pois consiste
Em louvor seu esforço. E alcança a paz.
Ela está me esperando em algum canto.
Me encaminho ao futuro e, sem quebranto,
Vejo aceso o fanal que aponta’a’estrada.
Sei que posso encontrá-la e não desprezo
À tendência’a’insistir. Não menosprezo
Chance alguma. E prossigo a caminhada.
10
Cai a chuva. Te espero em avenida
Onde o povo prossegue em passeata.
Te enxergar é difícil. Inexata
A procura. Mas não desdenho a lida.
A caminho prossigo na descida
Da’avenida lotada. E a vida é grata
Quando esforço demonstro em tão cordata
Paciência por ilusão movida.
Posso ver-te. Aproximo o coração
Da tristeza cruel da traição.
Já ferido, me viro e vou distante.
Finda a paz. O amor se acaba ali.
Tudo é pranto e o quebranto em frenesi
Me convence a levar a dor adiante.
11
Só me resta aguardar a tua volta.
Pressurosa hoje embarcas no avião.
A viagem me fere. E a aflição
Da distância me traz reviravolta.
Se demoras, meu ser é só revolta.
Acalanto não vejo. Nem razão
Pra sorrir. E não voltas por questão
De fazer-me sofrer. E o mal me escolta.
Pra que foste dizer que voltarias?
Passam meses, semanas, findam dias.
Tudo é dor. O amor não me conforta.
Muitos anos passados, tu retornas.
Outro tens e, por teres, me transtornas.
Entristeço e, em lágrimas, bato a porta.
12
Já consigo enxergar você. Me animo.
Céu cinzento. Sossego. Brisa fria.
Não me chames de amigo. Eis que o dia
É de amor. E do clima a dor suprimo.
Por que vens apertar-me a mão, se eximo
Da’amizade o teu ser? Vejo energia
Pra bem mais do que isso. E alegria
Pra bem mais que dizer só: “Eu te estimo”.
A tristeza atropela uma paixão
Alentada em meu ser. O coração
Não mais sabe o que pense disso tudo.
Quando viras as costas, me transtorno.
Já sem graça, caminho. E ao lar retorno
Arrasado, lacrimejante e mudo.
13
Do passado me ausento e parto sem
Trajetória precisa atrás de um sonho.
Peço a Deus pra que mude o ar tristonho
Dos meus dias. Conceda-me ir além.
Sigo bem lentamente e, assim, também
Não encontro incentivos. E o medonho
Clima atroz do presente é enfadonho,
Mas prossigo assim mesmo sem desdém.
Se o viver desafia os meus sentidos,
Cabe a mim confirmar que, entre os perdidos,
Está um que não há de desistir.
Se há tristezas, barreiras, pedras, serras,
Precipícios, caudais, rivais e guerras,
Mas estou decidido a prosseguir.
14
Muita dor me reserva a vida dura
Deste mundo de angústia e desamor.
Corro tanto. Lamento. Há dissabor.
Tudo é vão como é vã a aventura!
Porém tudo o que tenho por tortura
Faz-se aqui necessário. Olho o fulgor
Desse sol que me queima. O esplendor
Do “astro rei” só traz dor e em dor perdura.
Frio, calor, primavera, outono, inverno,
Março, abril, terça, quinta... Eis o inferno
Do terrível torpor desta existência.
Não adianta vencer. Perder é triste.
Mas o certo é que, tudo o que existe,
Não “me” passa de dor e excrescência.
15
Tomo a pista. Caminho em direção
De encontrar algo bom. O mal eu vejo.
Me equilibro. Mas algo malfazejo
Me arremessa. E eu me prostro sobre o chão.
Tenho muito a fazer. Qual a razão
De lembrar coisas más? O que desejo
É sorrir. Todavia, o vil ensejo
Da desgraça, me tira a diversão.
Olho’a’estrada. O escuro me circunda.
O lamento é profundo; a dor, profunda.
E o que há pra fazer ante o tropel?
Corre o homem, buscando segurança.
Acha a morte aliada à esperança.
É inútil. Fugaz... “Mundo cruel!”
16
De caminho a caminho, ando propenso
A chorar, todavia continuo.
Vejo nuvens escuras e concluo
Que será mais difícil do que penso.
É complexo’o’existir. Me acho tenso.
Tensa a vida, me traz dor e amuo.
Levo cargas pesadas. Não recuo,
Mas me canso bastante em dia intenso.
Passam meses e as horas me parecem
Sempre as mesmas. As coisas acontecem
Sem alerta de risco à existência.
Festas, risos fingidos, distrações...
Por desfecho a tristeza das canções
Lutuosas por última penitência.
17
Quero doce porvir, tenho exaspero.
Quero leve existir, eis um “algoz (´)”.
Quero o bem, eis o mal, serpe feroz.
Quero a vida melhor, me falta esmero.
Se desejo sossego, eis desespero.
Se desejo favor, não vejo os prós.
Se desejo prazer, eis dor atroz.
Viso menos tensões, vejo exagero.
Mesmo assim, inda há forças pra andar.
Não me posso abater. Devo enfrentar
A batalha. Então fito o horizonte.
Pés cansados. Tensões. Tudo é danoso.
Mas, se inda há força em mim, sou corajoso
Pra seguir sem que nada me amedronte.