quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Cachorro Fantasma

E isso não é maravilha,
Porque o próprio
Satanás se transfigura
Em anjo de luz.
(II Coríntios 11.14)

Baseado em Boatos Reais


O Cachorro Fantasma
1
Por volta dos quinze anos
Eu fui só a um salão
Pra cortar o meu cabelo.
E, naquela ocasião,
Eu ouvi uma conversa
Que me “chamou atenção”.
2
Só fiquei na condição
De ouvinte, por me achar
Muito novo pra querer
Qualquer assunto “puxar”
Com’os velhos que ali falavam
Quase que sem respirar.
3
E algo naquele lugar
Fez minha imaginação
Voar longe dado instante
Naquele velho salão.
Foi a lenda de um cachorro
Que assombrava a região.
4
Fiquei numa indecisão.
E não quis acreditar.
Mas mesmo assim me envolvi
Com a história sem notar
Porque ela era muito boa
E eu não pude me esquivar.
5
Diziam que, em cada lar
Onde o cachorro em questão
Apareceu, as pessoas
Da’assombrada habitação
Foram pra outra cidade
Com medo daquele cão.
6
“Seu” Lino, Alfredo e João,
Neco, Alceu, Bino e Altemar
Foram com toda a família
Morar em outro lugar
Devido à assombração,
Que um dia os veio assombrar.
7
Ninguém queria ficar
No casebre ou na mansão
Onde o “bicho” aparecesse,
Pois aquela assombração
Era algo mais que horrendo,
Não tinha comparação.
8
Falavam que o “seu” João
Viu o “bicho” no seu lar
Quando entrou num dos oitões
Da casa pra’averiguar
De onde advinha um ruído
Que só ouvia ao deitar.
9
Foi tentar observar
O que era aquilo, em razão
De já’star muito irritado
Co’aquela repetição
De sons confusos que ouvia
De dentro da’habitação.
10
Quando entrou, uma “visão”
Ele estranhou, ao olhar
Pra dentro do oitão da casa.
Porém não pôde enxergar
Direito porque o local
Tava escuro pra “danar”.
11
Mas insistiu em andar
Numa mesma direção.
Queria ver de mais perto.
Pois que daquela “visão”
Só tinha enxergado os olhos
Brilhando na’escuridão.
12
Ao perceber que era um cão,
Pôs-se a se tranqüilizar.
Mas quando o “bicho” voou,
Ele correu do lugar
Que as pernas davam na bunda
E não quis mais retornar.
13
Quando veio a luz solar,
Foi à sua habitação.
Antes dormira na casa
Do filho do seu irmão.
Esse estranhou a visita.
Mas depois soube a razão.
14
Ouviu o seu tio João
No outro dia explicar
Porque é que ele tinha vindo
Ontem dormir em seu lar.
Pensou ser tudo mentira,
Porém não quis discordar.
15
Pensou mesmo se tratar
De uma briga por razão
Da mulher desse seu tio
Ter se achado em condição
De ciente de algum caso
Que envolvesse traição.
16
Sabia ele que João
Gostava de freqüentar
Os prostíbulos da cidade
Atrás de se lambuzar
Na lama do adultério,
Sem com isso se importar.
17
- Ontem vi algo sem par
Lá no fundo do oitão. –
Falou João, apontando
Lá pra sua habitação.
E os dois partiram pra lá
Pra buscar explicação.
18
“Talvez alucinação
Fosse o caso a se pensar”.
Era o que o sobrinho tinha
Na mente, por cogitar
Que aquilo era uma desculpa
Que o tio queria “passar”.
19
Vasculharam sem cansar
Tanto um como o outro oitão.
Não encontraram indícios
De nenhuma assombração.
Mas João não se demoveu
Da sua história em questão.
20
À noite’a’investigação
Que ele fez foi exemplar.
Chamou seu jovem sobrinho,
E foram os dois olhar,
Fuçar, buscar, inquirir
O que houvessem de achar.
21
E, sob a luz do luar,
A danada da “visão”
Não é que se resolveu
A aparecer no vão,
Detrás da porta do sótão
Da citada habitação!
22
Depois da perscrutação,
Resolveram descansar.
E ao irem guardar no sótão
As lanternas, o lugar
Todo tremeu e os dois
Correram pra “se livrar”.
23
Mas a dupla, ao esbarrar
Co’a “infiliz” da “visão”
Detrás da porta do sótão,
Gritou a todo pulmão:
- Meu Deus! Alguém nos ajude!
Que aqui tem assombração!
24
A esposa de João
Correu pra tentar “matar”
Aquilo, fosse o que fosse.
Seria inútil tentar,
Mas, mesmo assim, se propôs
Ir pra tentar ajudar.
25
Chegou. Ficou a gritar.
Aí, fechou-se o portão.
Deu um vento no telhado.
Caíram telhas no chão.
A energia faltou.
E o cão correu pra o porão.
26
Depois deu-se uma explosão.
A luz “começou piscar”.
O cão latiu lá debaixo.
De cima, o povo a gritar.
Correu vizinho pra casa,
Só que lá não pôde entrar.
27
A porta “pôs-se” a travar
Sem que alguém, na’ocasião,
Viesse “passar-lhe a chave”.
E não houve condição
Dos vizinhos resolverem
Aquela situação.
28
Tomaram a decisão
De aquela porta arrombar.
Bateram. Bateram forte.
Mas nada de adiantar.
Tudo parecia ferro.
Ninguém poderia entrar.
29
As janelas do lugar
Fecharam-se, por razão
Da ventania, num baque
Como de uma colisão
De dois carros e estavam
Travadas como o portão.
30
Os vizinhos em questão
Inda puderam pular
O portão, mas, depois disso,
Nada puderam pensar
Pra ajudar as pessoas
Que estavam naquele lar.
31
O cão se pôs a rondar
A casa, em situação
De fúria descomedida,
E uns, naquela ocasião,
Correram dali de perto
Sem fazer hesitação.
32
Com’o tempo aquela tensão
Passou e aquele lugar
Voltou à normalidade
E o povo pôde escapar
Da casa com muito medo
E pra nunca mais voltar.
33
Co’aquela história sem par,
“Fiquei que era só tensão”.
E um dos cabeleireiros
Donos daquele salão
Falou pra que eu me sentasse
Pra que ele entrasse em ação.
34
Sentei, na ocasião,
Onde ele mandou sentar.
E ele começou cortando
Meu cabelo sem nem dar
Chance pra eu lhe dizer
Como o queria cortar.
35
Entretanto, sem ligar
Praquela situação,
Dispus-me a só atentar
Pra longa conversação
Na qual todos se envolviam,
Todavia, só eu não.
36
Continuando a narração,
Outro velho quis deixar
Bem claro que aquela história
Ele podia atestar
Como sendo verdadeira,
Por tudo testemunhar.
37
Cheguei a me admirar
Com o grau de convicção
Do velhote ali em pé
Bem no meio do salão.
Quis inquirir os detalhes.
Mas não fiz indagação.
38
- Houve também o irmão
Do nosso amigo Altemar.
Que não quis, de modo algum,
No irmão acreditar
E terminou “foi” provando
Da mesma “maré de azar”.
39
Depois de tudo escutar,
Segui, com apreensão,
Pra minha casa, pensando
Naquela conversação
Toda que eu havia ouvido
Quando estava no salão.
40
- Minha casa tem oitão
E portão defronte ao lar... –
Listei umas semelhanças
Que havia entre o lugar
Onde eu morava e a casa
De João, ao caminhar.
41
Perguntei logo ao chegar
A minha mãe a razão
De a gente ter se mudado
Para aquela habitação.
Ela respondeu que o preço
Era sem comparação.
42
Vi que a nossa habitação
Decerto era o mesmo lar
Que fora(^) do tal João,
Que não quis mais habitar
Por ali e colocara
À venda aquele lugar.
43
Se os meus pais viram estar
Muito barato, a razão
É que aquele domicílio,
Devido à assombração,
Muito se depreciara
Lá naquela região.
44
Achei-me em situação
De mais desmedido azar.
E se aquela assombração
Viesse a nos visitar?
Como a gente poderia
Da “danação” se livrar?
45
“Peguei a” mancomunar.
Busquei muita informação.
Falei com pastor, com padre,
Com freira, com sacristão,
Porém ninguém resolveu
Aquela situação.
46
Mesmo não sendo cristão,
Comecei a me apegar
A umas rezas compostas
Na Idade Média e orar.
Mais quanto mais eu rezava,
Mais vivia a me assombrar.
47
Sabia que dar lugar
À muita imaginação
Poderia complicar
A minha situação.
Tentei então controlar
Toda aquela devoção.
48
Fiz todo tipo de ação
Pra, “tipo”, me imunizar.
Passaram meses e meses,
E nada de eu me encontrar
Co’a danada da maldita
Assombração no meu lar.
49
Depois eu fui estudar
Noutro canto por razão
De pretender me formar
Na área da computação.
E esqueci todas as coisas
Ouvidas lá no salão.
50
Já era um homenzarrão,
Não podia me apegar
A coisas tão infantis
Que ninguém pôde provar.
Já passara muito tempo
E nada eu vira em meu lar!
51
Comecei a namorar
Co’alguém da’instituição
De ensino que eu freqüentava
E me vi sem condição
Nenhuma de “me bater”
Com nenhuma assombração.
52
Por certo a’imaginação
De todos lá do lugar
Onde eu morava fizera
O povo se colocar
À disposição de mitos
Que nunca pôde atestar.
53
Todo dia a arrotar
Minha descrença em questão,
Fez-me por demais seguro
E sem qualquer propensão
A vir me abrir qualquer dia
Pra qualquer religião.
54
Eu fazia de brasão
Meu ateísmo sem par.
Tudo era superstição.
Em nada eu podia achar
Tal segurança a não ser
No ato de a fé negar.
55
Queria me aventurar
Na luxúria numa ação
Mais descrente e secular,
Sem ser cristão nem pagão.
Fazer o que bem quisesse
Sem ver qualquer punição.
56
Entrei na devassidão.
Lascivo, fiz sem cessar
O que quis na minha vida,
Sem nunca me deparar
Com a punição eterna
Da qual não dá pra’escapar.
57
Depois de muito estudar,
Já com bastante instrução,
Fui morar noutro país,
Buscando outra formação.
Formei-me, corri pra outro
E outra graduação.
58
Tanto em comunicação,
Eu pude me fascinar
Com o seu conhecimento,
Quanto na área exemplar
De exatas, na qual galguei
O mais alto patamar.
59
Decidi por me fixar
Na Holanda, por razão
De poder aproveitar
Ali sem moderação
Uma vida de pecado
Pra’alcançar satisfação.
60
Comprei uma habitação
Grande, com vista pra o mar.
E tive satisfação
Em poder me instalar
Em país tão lindo e rico
E tão bom pra se morar.
61
Não voltei mais a ligar
Nem pra’irmã nem pra irmão;
Nem pra pai e nem pra mãe.
Minha desvinculação
Da família foi completa.
E achei boa a decisão.
62
Ao que chamam perversão
Eu me entreguei sem pensar.
Doei-me à libertinagem.
Pequei sem jamais deixar
Que uma crença me fizesse
Vir a deixar de pecar.
63
Até que um dia, ao parar
No ponto de uma estação,
Eu me encontrei com um cara
De uma estranha feição
Que me falou uma coisa
Que me “chamou atenção”.
64
“Isso é alucinação,
Devido a eu me enfiar
Nas drogas a noite toda” ...
Era o que estava a pensar.
Não demorou muito e eu vi
Minha cabeça a girar.
65
Tudo ao redor a rodar,
Trouxe-me indisposição.
Só que, num passe de mágica,
Eu senti minha visão
Normalizada e o meu corpo
Sem ter qualquer exaustão.
66
O cara estendeu a mão
E a outra pôs-se a fechar.
Era algum tipo de truque.
Coisa pra me impressionar.
Saí, caminhei, olhei:
Tava no mesmo lugar.
67
Eu não pude acreditar
Naquela situação.
Tentei andar e correr,
Mas o doido é que a ação
Que eu fazia não fazia
Eu me afastar da estação.
68
Sim... Chamou-me a atenção
Algo que o cara, ao sentar,
Falou-me em tal estação,
Só pra’um assunto puxar.
Eu fiquei muito abismado
Com’o que me veio falar.
69
- Você pode duvidar,
Mas não tem convicção.
- E o terço que há na gaveta
Da cômoda da’habitação
A qual fica no teu quarto?
Tu guardas por que razão?
70
Onde, aquela informação,
Ele conseguiu achar?
Ninguém sabia daquilo.
Não dava pra’adivinhar.
E logo vi que ele estava
Querendo me assustar.
71
E conseguiu me abalar,
Que eu, naquela ocasião,
Tremia qual vara verde
E errava na dicção
Até de frases comuns
Devido àquela impressão.
72
Cheguei quase à exaustão,
Tentando me afastar
Daquele mau elemento,
Que continuava a estar
Sempre diante de mim.
Não adiantava tentar.
73
Até cheguei a cansar,
Mas, antes da exaustão,
Resolvi então parar
Com aquilo, que era em vão
Que eu tentava me afastar
Daquela perseguição.
74
No ponto da estação
Onde ele veio a sentar
Eu também me recostei,
Agora, sem me importar
Com o que é que fosse aquilo
Que estava ali a me olhar.
75
Ele se pôs a falar,
Em exígua narração,
A’história da minha vida.
E eu, só “prestando atenção”,
Ouvia frase após frase
E oração a oração.
76
Ao desviar a visão,
Sempre eu podia notar
Algo na sua feição
Vindo a se modificar.
Isso, ao retornar a vista
E, de novo, o encarar.
77
Ao metamorfosear
Ali a sua feição,
Ficava cada vez mais
Horrenda a sua visão.
E eu inda mais assustado
Ante tal transformação.
78
Horrível transmutação
Eu podia observar.
E cada vez mais a voz
Dele ali a engrossar
Numa rouquidão tamanha
Que chegava a assustar.
79
Falou-me do antigo lar,
Minha antiga habitação.
De todos que assustara
Em tal localização.
Chegou até a matar
Um velho do coração.
80
Não soube daquilo não,
Mas resolvi me calar
Sobre qualquer pormenor
Do que estava a me contar.
Ouvi, ouvi e ouvi.
Não cansava de escutar.
81
- Lembra do “seu” Altemar? –
Fez-me tal indagação.
Eu disse que me lembrava,
E ele, em continuação,
Disse que ele em dez minutos
“Entraria num caixão”.
82
Fiz então a ligação
Que ele insistiu em mandar
Eu fazer naquele instante.
Pois também não quis negar.
Quis saber se era verdade
O que estava a me falar.
83
O telefone a chamar.
Chamou, chamou. E eu, co’a mão
Na parede, impaciente,
Não desisti, por razão
De estar a fim de saber
Se era certa’a’informação.
84
Aquela numeração
Era de algum lugar.
Mas não de uma residência.
Isso eu pude suspeitar
Quando a voz da atendente
Pediu-me pra aguardar.
85
Pelo rumor do lugar,
Era uma instituição
Onde tratavam pessoas.
Ouvi que um cirurgião
Estava sendo chamando
Na sala de operação.
86
- Hospital São Damião.
Renata. Posso ajudar? –
A outra não me dissera
Certo o nome do lugar.
- Por favor, há internado
Alguém chamado Altemar?
87
Sem saber como explicar,
No meio da ligação,
Escutei a voz do velho,
Que me “chamou atenção”.
Fraca, rouca, sepulcral
E de estranha entonação.
88
- Ó filho, aprenda a lição.
Ele te quer enganar.
- Corra, filho, peça a Deus
Pra que venha a perdoar
Seus pecados. Vá! Ligeiro.
Não deixe o tempo passar.
89
- Não se entregue ao lupanar,
Às drogas, à perversão.
Se entregue a Cristo, meu filho,
Sem nenhuma hesitação.
- Ah, meu Deus! Socorro! Alguém
Afaste essa assombração!
90
- Senhor, a informação
Que acabaram de passar
É que o nosso paciente
Chamado Pedro Altemar
Acaba de falecer
Lá no leito hospitalar.
91
Ouvi a mesma falar,
Depois daquela audição
Estranha daquela voz
Que fez interrupção
Na ligação. Só que a moça
Não estranhou nada não.
92
Por certo, na ligação,
Só eu que pude escutar
Aquela voz lamentosa
Daquele velho a falar.
Fiquei bastante assustado.
Porém não quis “me entregar”.
93
Quis então averiguar
No relógio da estação
Quantos minutos de fato
Foram pra que’a’informação
Da morte de Altemar
“Chegasse à minha audição”.
94
Fui fazer a medição
E pude bem constatar:
Dez minutos mais ou menos!
Foi o que eu pude contar.
Pois antes memorizara
A hora pra confirmar.
95
Aí, quando fui olhar
Pra o banco da estação,
O carinha assustador
Ali não tava mais não.
Mas havia em seu lugar,
No ponto, uma pichação.
96
Uma figura de um cão
E uma inscrição a falar:
“Amanhã, às cinco horas,
Eu virei pra te pegar.
Prepare-se pra morrer,
Que eu tô pronto pra matar”.
97
Comecei a gaguejar,
Relendo aquela inscrição
Pra ter certeza do fato
Da ameaça em questão.
Virei o rosto e, ao tornar,
Não vi mais a pichação.
98
Já na minha habitação,
Comecei a meditar
Naquelas palavras duras.
Sono eu não pude encontrar.
E, ao amanhecer o dia,
Eu intentei me mudar.
99
Saí daquele lugar
Em alta aceleração.
Sem diminuir nas curvas
E entrando na contramão
Pra’estar no aeroporto
Logo. E pegar o avião.
100
Só que, próximo à estação,
Eu tive o enorme azar
De haver furado um pneu
Do carro, pra me atrasar.
Mandei chamar um reboque,
Mas ninguém quis me buscar.
101
Estacionei num lugar
Distante, por precaução.
Fiquei num café bem longe
Dos pontos da estação.
E aguardei vir o reboque,
Mas cheio de apreensão.
102
Vi a preocupação
Quase que se dissipar
Quando avistei uma linda
Mulher ali a me olhar.
Sentei numa das cadeiras
E a comecei encarar.
103
Ela veio conversar
E eu fiquei sem condição
De me apressar porque vi
Que toda a sua intenção
Tinha algo em comum co’a minha
Lasciva imaginação.
104
Em longa conversação
Eu me expus sem hesitar.
Bebemos muito, comemos
E, ao fim, chamei-a pra dar
Uma volta na cidade
Pra gente desopilar.
105
Acabamos num lugar
Chamado “Fascinação”
(O nome era em holandês,
Mas essa é a tradução).
Tava pronto pra lascívia...
Então pensei, “que horas são?”
106
Senti na ocasião
Algo ruim a me olhar.
Eram cinco horas da tarde...
Quando fui observar,
A moça tinha sumido...
Ou ido a algum lugar.
107
Esperei ela voltar.
Mas a preocupação
Fez-me mudar de idéia
Devido à situação
De me sentir inseguro
Naquele hotel em questão.
108
Me dirigi ao balcão
Pra estadia pagar.
Quando já ia saindo,
Vi a moça a me chamar.
Corri pra onde ela estava,
Alegre por a’encontrar.
109
Voltamos para o lugar
Onde a vil devassidão
Aflora entre os cobertores
E o conforto do colchão.
E, ao entrar, ela indagou:
- Meu amor, que horas são?
110
Estendeu a sua mão,
Me dando o seu celular...
Vi que o meu relógio tinha
Mania de adiantar...
- Cinco horas. – falou ela
Sem nem precisar olhar.
111
E, aí, naquele lugar,
Houve uma transformação.
O chão se abriu e engoliu
Tudo sem explicação.
E eu me achei em outro canto,
Cheio de inquietação.
112
Pensei que a’imaginação
Tinha me feito forjar
Aquilo tudo na mente.
Só precisava acordar.
Mas nada ali era um sonho.
Não dava pra duvidar.
113
Então “comecei orar”,
Pedindo ao Deus de Abraão
Pra me livrar do pior,
Pois já tinha a sensação
Que ali, a qualquer momento,
Veria a face do Cão.
114
Foi aí que um cachorrão
Apareceu no lugar.
Era o cachorro do Cão.
Não podia acreditar.
O mesmo que aparecera
Lá no meu antigo lar.
115
Eu corri pra me livrar,
Mas, chegando à exaustão,
Parei e vi que o cachorro
Olhava pra direção
Do Diabo. Mas, ao virar-se,
Pude encarar-lhe a feição.
116
Comecei outra oração,
Tentando me concentrar
Em algo que não viesse
A ser a peculiar
Imagem da danação
Que a todos chega a tentar.
117
“Peguei” me desconcentrar.
Fiquei numa agitação
Descomedida de um jeito
Que não há comparação.
Gritei: - Senhor, me ajude!
Mas não achei proteção.
118
Fiquei sem ver solução.
Não adiantava clamar.
Fui posto em uma prisão
Da qual não pude escapar
E nunca mais resolvi
Nem pensar em duvidar.
119
Acordei noutro lugar,
Tendo mudada a feição.
Tava uns cinco anos mais velho.
Já fraco do coração...
Converti-me no outro dia
Pra provar a alegria
Que só Jesus pode dar.
Troquei minhas “desandanças”
Pelas bem-aventuranças
Que lá no céu vou gozar.
120
Feliz procura viver
Em paz com’o Supremo Ser
Levando a vida sem dor.
Infunde em teu coração
Pureza e satisfação
Envoltas do santo amor.
Autor: RF Amaral

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Os Fantasmas do Carlota (A visão de Genefride)

E isso não é maravilha,
Porque o próprio
Satanás se transfigura
Em anjo de luz.
(II Coríntios 11.14)

Baseado em Boatos Reais


Os Fantasmas do Carlota
(A visão de Genefride)
1
Zé de Mirôcha é o guarda
Daquele centro escolar
E “um certo” dia de noite,
Quase em hora de jantar,
Comentou que, no Carlota,
Tinha algo estranho no ar.
2
Comecei me interessar
“Pela tal” revelação.
E sentei pra escutar
Toda a sua narração
Dos fatos que aconteciam
Naquela edificação.
3
Pois bem, sua exposição
Dos fatos me fez pensar
Em escrever um cordel
Sobre os assombros “sem par”
Que o haviam assustado
Naquele centro escolar.
4
Disse ele que, ao se sentar,
Numa certa ocasião,
Numa cadeira da área
Onde é a recepção,
Sentiu algo muito estranho,
Mas não sabia a razão.
5
Teve uma leve impressão
Que alguém o estava a olhar.
Olhou, buscou, mas ninguém
Estava a “lhe vigiar”.
Pensou estar meio doido
Ou talvez fosse ficar.
6
Sentou-se noutro lugar
Pra evitar a razão
De pensar no que pensava,
Diante da situação
Ser bastante assustadora
Pra buscar explicação.
7
Ao ter outra sensação
Estranha e sem similar,
Levantou rápido e saiu
A fim de poder falar
A um guarda ali vizinho
O que estava a se passar.
8
Nêgo Orácio, ao escutar,
Ficou que era só tensão.
Também não soube explicar
Aquela situação.
Disse que havia sentido
Semelhante sensação.
9
Voltou pra’edificação
Onde estava a trabalhar.
Vasculhou, limpou, varreu,
“Fastou” cadeira pra’achar...
Mas não achou o motivo
De tanto se inquietar.
10
Decidiu então parar
De querer achar razão
Pra tentar ficar tranqüilo
E, após uma reflexão,
Conformou-se e se deitou
Num colchão ali no chão.
11
Tendo a “tranqüilização”
Que intentara alcançar,
Começou “pegar no sono”
Por não se preocupar
Com qualquer assombração
Que o estivesse a olhar.
12
Então “danou-se” a soprar
Um vento frio sem razão.
As cadeiras se arrastando
Pelo meio do salão
E um tropel de cavalgada
No teto da construção.
13
Levantou de supetão.
Não sabia o que falar.
Correu pra pôr as cadeiras,
Cada uma em seu lugar.
Mas era arrumando uma,
E outra a se desarrumar.
14
Começou a se irritar
Co’aquela situação.
Gritou praquilo parar,
No entanto não parou não.
E ele se viu enrascado
Sem encontrar solução.
15
Foi aí que viu a mão
De um fantasma atravessar
Uma parede da escola
Pra querer o alcançar.
Era esticando, esticando
E ele ali a se afastar.
16
Já, a se desesperar,
Tentou fazer oração,
Mas a danada da alma
Puxou no cós do calção.
E ele tentou se livrar,
No entanto não pôde não.
17
Diante da perturbação
Da ordem, não viu lugar
Pra onde pudesse ir.
Nem adiantava tentar.
Se corria, aquela mão
Insistia em “lhe agarrar”.
18
Esperou ela mostrar
A sua horrenda feição.
Saindo o corpo “pra fora”,
Viu que aquela aparição
Se tratava de um rapaz
De boa reputação.
19
- Genefride, meu irmão!
Por que não fez só chamar? –
Indagou Zé de Mirôcha,
Podendo identificar
Quem era aquela figura
Que o viera “visitar”.
20
- Deixei de desenterrar
A quantia de um milhão
Em ouro ali no meu sítio.
Vá lá, meu querido irmão! –
Exclamou-lhe Genefride,
Depois da indagação.
21
- Recebi a’informação
De um “malassombro” sem par
Quando eu ainda era vivo.
Então vá lá pra buscar,
Que eu, mesmo depois de morto,
Ainda quero gastar.
22
Zé “começou se arrumar”
Pra ir àquela porção
De terra que pertencia
Ao vulto da’aparição.
Chegou. Cavou. Mas não viu
O lucro da’escavação.
23
E, após ponderação
Sobre o exato lugar
Onde acharia a botija,
Parou logo de escavar.
Até voltou pra’o Carlota,
Mas ninguém pôde encontrar.
24
Dizem que ele anda a buscar
O vulto pra que corrija
A’informação a respeito
Do ouro que o regozija,
Mas nunca mais o encontrou
Pra “perguntar da” botija.

A História do Cemitério (A Necrópole de Tabira ou A Morta Enterrada Viva)

E isso não é maravilha,
Porque o próprio
Satanás se transfigura
Em anjo de luz.
(II Coríntios 11.14)

Baseado em Boatos Reais
A História do Cemitério
(A morta enterrada viva)
1
Fui conversar com Bodeco,
Um cidadão popular,
Que cuida do cemitério
E ele se pôs a contar
Histórias “malassombrosas”
Passadas nesse lugar.
2
Disse cansar de escutar
Em tal localização
Choro, gemido, batido
De espírito em condenação
Sem conseguir se livrar
Do fogo da perdição.
3
Fantasma varrendo o chão,
Defunto a se levantar,
Alma penada lavando
Panela de alguidar
E arrastado de enxada
Perto do portão de entrar.
4
Mas o que veio a contar
Que me causou mais tensão
Foi a’história de uma velha
Que apareceu no portão,
Às cinco e meia da tarde,
Entrando sem permissão.
5
Mas ele não fez questão
E decidiu esperar.
Já era’hora de partir,
Mas resolveu aguardar
A velha findar as rezas
Que veio ali recitar.
6
Meia’hora pôde aguardar,
Mas tanta “protelação”,
Fez ele se aborrecer.
E, ao “encostar” o portão,
Foi atrás da anciã
Pra’apressar sua oração.
7
No entanto, não viu mais não
A velha ali a rezar.
Procurou em todo canto,
Mas não a pôde encontrar.
Aí, teve um passamento
E desmaiou no lugar.
8
Após poder recobrar
As forças na’ocasião,
Correu ligeiro pra’entrada,
Fechou ligeiro o portão
E partiu pra casa achando
Estranha a situação.
9
Ao se passar um tempão
Sem nada o atormentar,
Chegou um rapaz com pressa,
Querendo desenterrar
Alguém que enterraram vivo
Ali naquele lugar.
10
Disse o rapaz se tratar
Da sua mãe Conceição.
Confessou que teve um sonho
Misturado com visão
No qual ela lhe pedia
Pra tirá-la do caixão.
11
Falou que a aparição
Dela vagava em seu lar.
Entrava dentro do quarto,
Banheiro, sala-de-estar,
Na cozinha e até mesmo
No oitão daquele lugar.
12
Então decidiu entrar
Já no primeiro avião
Com destino a Pernambuco,
Pra dar finalização
Àquele drama danado
Que lhe dava inquietação.
13
Disse até que “no” avião
A alma quis adentrar.
Só não teve permissão,
Porque faltava comprar
A passagem da “bendita”,
Pra que pudesse embarcar.
14
Nem conseguiu cochilar
Dentro daquele avião.
Veio do chão paulistano
Até nossa região
Sem “tirar uma pestana”
Em nenhuma ocasião.
15
Ao ouvir a narração
Do rapazinho exemplar,
Bodeco se interessou
Pra tentar solucionar
O problema do garoto
Que começou a chorar.
16
Mas antes de “começar
Desenterrar” o caixão,
Lembrou que a nora de um primo
“Lhe dera” uma informação
Sobre como proceder
Naquele tipo de ação.
17
Comentou que o seu irmão
Disse que um vulto vulgar
O perseguiu muito tempo
“Lhe pedindo” pra falar
À sua mãe que queria
Que o fossem desenterrar.
18
Ele soube que jogar
Cal em cima do caixão
Do defunto é o bastante
Pra pôr fim na’assombração...
Ou uma pá de cimento
No corpo em putrefação.
19
Escolheu-se a opção
De nada deixar faltar.
Trouxeram cal e cimento
E “começaram cavar”.
Porém, foi só “dar” início,
Pra um caos se iniciar.
20
A alma pôs-se a gritar
“Da entrada do portão”:
- Pode guardar o cimento
E a pá, colocar no chão,
Que só quem morre é que sabe
O peso da solidão.
21
Cada qual de pá na mão,
Correu pra se abrigar
Numa capela que tinha
Dentro daquele lugar.
Mas haja adentrar fantasma
Aonde “acharam de” entrar.
22
Morto “começou andar”,
Espírito em levitação,
Alma batendo na porta
Só pra “chamar atenção”
E vulto dando risada
Que estremecia o portão.
23
Então, frente à confusão
Que ali veio a se instaurar,
O jovem deliberou
Deixar de continuar
Co’aquele plano que estava
Prestes a concretizar.
24
Tudo voltou ao lugar
E ele voltou de avião.
Quis morar na mesma casa
Com aquela assombração,
Só pra não deixar a mãe
Morrendo de solidão.

O “Assombramento” do Açougue (O “malassombro” açougueiro)

E isso não é maravilha,
Porque o próprio
Satanás se transfigura
Em anjo de luz.
(II Coríntios 11.14)

Baseado em Boatos Reais


O “Assombramento” do Açougue
(O “malassombro” açougueiro)
1
Fui buscar “seu” Aristeu
Para poder me informar
Sobre o que ocorreu no açougue
De tão espetacular
Que desse pra inserir
Neste “conto” popular.
2
Suei pra tentar tirar
Dele uma só narração
De algum fato que me desse
Uma luz de inspiração
Pra clarear meus caminhos
Nesta minha redação.
3
É que Aristeu fez menção
De jamais se importar
Com coisa do outro mundo,
Por em nada acreditar
De tudo o que lhe contavam
A respeito do lugar.
4
Mas foi só eu apertar,
Que ele fez uma alusão
De haver alguém lhe contado
Algo sobre uma “visão”
Que aparecia no açougue
Com uma foice na mão.
5
Mangarefe, um cidadão
Funcionário do lugar,
Dissera já ter achado
Aquele assombro a vagar
Por lá com uma estrovenga,
Mas não quis o incomodar.
6
Bastião “chegou contar”
Que aquela horrenda “visão”
Uma vez correu atrás
Dele co’um facão na mão
E só não o alcançou
Por causa de um tropeção.
7
Esse fantasma em questão
Entrava em todo lugar:
No banheiro, no balcão
E no local de estocar
As carnes do matadouro
Que acabavam de chegar.
8
Vivia sempre a pegar
Carona na condução
Usada pra transportar
Carne e fazer remoção
De algumas coisas dali
Pra outra repartição.
9
Usava “tipo” um roupão
De açougueiro trabalhar,
Uma touca na cabeça,
E uma bota militar.
E sempre trazia à mão
Algo usado pra cortar.
10
Gostava de bagunçar
Coisas da repartição.
Se alguém botasse algum troço
Numa localização,
Ele o tirava de lá
Só pra ver a confusão.
11
Certo dia Bastião
Pôs o boné num lugar.
Pois não é que a danada
Da’assombração quis levar!
E todo mundo buscando,
Mas sem conseguir achar...
12
Depois de o dia raiar,
Já em outra ocasião,
É que se pôde encontrar
O boné do cidadão:
Tava em cima do telhado,
No teto da construção.
13
Ninguém viu explicação
Para o boné lá estar.
Mas já tava acontecendo
Tanta coisa de estranhar
Que isso já não era mais
Novidade no lugar.
14
Até um dia chegar
Um moço ali no salão...
Pediu dez quilos de carne
E, após gritar do balcão,
Alguém o veio atender
Co’uma bacia na mão.
15
Ao chegar com prontidão,
Virou-se pra se coçar,
Só que, quando olhou pra frente
Para o freguês despachar,
O moço havia sumido
E ele “pegou perguntar”:
16
- Não tinha alguém a chamar
Parado aqui no balcão? –
Ninguém respondeu. Mas, quando
Andou noutra direção,
Tava o moço ali de novo,
Gritando a todo pulmão.
17
Correu pra recepção
E outra vez quis se virar.
Quando se voltou, cadê
O tal que estava a gritar?
Abusou-se e fez menção
De querer se retirar.
18
Mas nem começou andar,
Alguém falou do balcão.
Era o moço, mas vestido
De açougueiro com a mão
Sangrando e tendo na outra
Um reluzente facão.
19
E o atendente assustou-se*
Diante da situação.
Correu, mas aquele moço
Ia no mesmo rojão,
Gargalhando e levitando
A uns dez palmos do chão.
20
Correu todo cidadão
Que inda estava no lugar.
Uma velha tropeçou
E o fantasma quis levar,
Só que ela era muito feia
E ele decidiu deixar.
21
“Timbu” correu pra olhar
O que era a agitação.
Apareceu um cachorro
Escuro igual a carvão,
Agarrou-lhe a mão direita,
Que ele ficou sem ação.
22
Só “findou-se” a confusão
Quando o espírito vulgar
Abraçou-se co’uma junta
De boi que estava a pastar
Defronte a Luís Cordeiro,
Colado a Assis do bar.
23
O povo pôde avistar
O vôo da assombração
Montada sobre o cachorro,
Que mordeu Timbu na mão,
E a junta de boi voando
Pra dentro da cerração.
24
Não se viu mais tal “visão”
Daquele tempo pra cá.
Nem há relatos tão bons
Quanto este que aqui está.
No entanto, ainda há quem jure
Que ela ainda anda por lá.
(*Errei a deixa por falta de atenção. Perdão.)

A Quadra do “Malassombro” (Pelada de alma penada)

E isso não é maravilha,

Porque o próprio
Satanás se transfigura
Em anjo de luz.
(II Coríntios 11.14)

Baseado em Boatos Reais


A Quadra do “Malassombro”
(Pelada de alma penada)
1
Assis, o guarda da Quadra,
Recebeu-me no seu lar,
Após saber da notícia
Que eu estava a pesquisar
Eventos fantasmagóricos
Vistos naquele lugar.
2
Pra bem o identificar
Eu lhe fiz inquirição.
E ele disse: - Eu trabalhei
Ali já faz um tempão.
Foi na década de oitenta,
Mas tenho recordação.
4
- Pra azo de informação,
A esposa do meu lar
“Se chama” dona Ceci.
E eu também posso contar
Quatro filhos que nós temos
Na união familiar.
5
- Pra quem quiser me achar,
Pegue a localização:
Chegando detrás do fórum,
Só precisa dar co’a mão
Que todo mundo “lhe” informa
Onde é minha habitação.
6
Pra’início de narração,
Assis “começou falar”
Que um dia, quase de noite,
Tava ali a vigiar,
Mesmo no portão da frente,
Quando ouviu alguém gritar.
7
Tõe de Marta, sem parar,
Desembestou num rojão
Descomedido de um jeito,
Gritando a todo pulmão
Que em cima do vestuário
Havia uma assombração.
8
E Assis foi ver se a ação
Vinha a se justificar.
Porém, quando chegou perto,
Já não podia falar,
Que havia um vulto voando
Mesmo em cima do lugar.
9
Jadílson veio pra’olhar
O que era a tal confusão,
Mas, no meio do caminho
Viu andando o caminhão
De lixo da prefeitura
Sem ninguém na direção.
10
João da Borborema não
Quis naquilo acreditar.
E, após ouvir a notícia,
Foi lá para averiguar
Se o que’ouviu era verdade
Ou Tõe falou pra “zonar”.
11
Ao adentrar o lugar,
Teve logo uma impressão
Que a ambulância, deixada
Lá em dada ocasião,
Estava lhe perseguindo
Sem muita aceleração.
12
Só que aquela condução
De enfermos só veio estar
Lá porque tava quebrada.
Disso ele pôde lembrar.
Mas era andando e a danada
“Lhe” seguindo devagar.
13
Então correu pra’avisar.
E Assis, ao ver que João
Vinha correndo com medo,
Foi em sua direção.
Aí Jadílson chegou
Correndo de outra “visão”.
14
Só sei que foi caminhão
Solto pairando no ar.
As traves daquele canto
Também subindo a “voar”.
Apareceu uma bola
E um time “pegou jogar”.
15
Ninguém sabia explicar
Aquela situação.
O vestuário voou
Após despregar do chão.
E, aí, saíram dois times
Pra’entrar na competição.
16
Dividiu-se no salão
Quem deveria jogar.
Aí, João da Borborema
Viu aquilo se tratar
De jogadores já mortos
E os pôde identificar.
17
Garrincha a se arrumar,
Ajeitando o seu meião,
Vicente Feola, o técnico,
Que já foi da Seleção,
Juvenal, “Vavá” e Zózimo
Aguardando a’escalação.
18
- Castilho e Pedrosa são
Os que hoje vão agarrar! -
Exclamou João assustado
De aquilo presenciar.
Contou uns cem jogadores
Preparados pra jogar.
19
Leônidas pegou rolar
A bola na’ocasião
Pra Didi e esse passando
Pra Zizinho de calção
Azul e co’uma camisa
Com’o brasão da Seleção.
20
Jadílson e Assis então
Se sentaram pra olhar
O jogo fantasmagórico
Que iria já começar.
Cada um comprou pipoca
E parou pra’observar.
21
Viu-se o juiz apitar
Pra dar iniciação
À partida, só que antes
Deu-se grande confusão
Que só parou quando o técnico
Mudou a escalação.
22
Deu-se início ao jogo então
E a bola pôde rolar.
E, após muita marcação,
E o ataque sem marcar,
Vavá fez um gol de mão
E o juiz “achou de” dar.
23
E a briga pegou rolar
Naquela competição.
Garrincha deu soco em um
Que voou fora o calção.
Castilho empurrou Pedrosa,
Mas findou no camburão.
24
Findada a agitação,
Tudo desapareceu.
Assis correu, foi embora;
Jadílson se escafedeu;
E João da Borborema
Nunca mais apareceu.

Assombros do Pedro Pires (O menino acaveirado)

E isso não é maravilha,

Porque o próprio
Satanás se transfigura
Em anjo de luz.
(II Coríntios 11.14)

Baseado em Boatos Reais


Assombros do Pedro Pires
(O menino acaveirado)
1
Conhecido por Bibi,
O seu nome popular,
Luiz Farias um dia
Chamou-me pra conversar
E relatou umas coisas
Que davam medo escutar.
2
Lá no reduto escolar,
Onde exerceu profissão
De vigia, viu de tudo:
Vulto de pé no portão,
Dançando na cumeeira
E até sentado no chão.
3
Ligava a televisão
Ou o rádio pra’escutar
As notícias importantes
Pra poder se informar,
Mas o danado é que os dois
Sempre saíam do ar.
4
Rádio “pegava” a mudar
De volume e estação.
TV trocava canal
Sem ninguém botar a mão.
Posto que pra assistir
Dava um trabalho do “Cão”.
5
Via vulto de feição
Feminina a passear.
E até de adolescente
Que morreu sem terminar
O estudo naquele canto
E ainda vinha estudar.
6
Via vulto a cozinhar,
Arrastando o pé no chão,
Passando com frigideira,
Estrelando ovo na mão...
Gemido, choro, assovio,
Tudo sem explicação.
7
Mas o que, na narração,
Mais me fez arrepiar
Foi a história de um menino
Que, numa noite sem par,
Resolveu aparecer
Ali naquele lugar.
8
Bibi tava a cochilar
Deitado ali num colchão
Por volta da meia-noite,
Quando sentiu um puxão.
Foi olhar, era o menino
Bagunçando no salão.
9
Jogando a bola co’a mão
Nas paredes do lugar.
Correndo, rindo e gritando
Sem o deixar descansar.
Então ele resolveu
Falar pra ele parar.
10
- Quem é teu familiar? –
Fez-lhe tal indagação.
Mas a criança não fez
Qualquer tipo de menção
Que iria parar co’aquilo
Ali naquele salão.
11
- Onde é tua habitação? –
“Se pôs” ele a perguntar.
Mas quanto mais o indagava,
Mais aumentava o azar:
Que o guri se enfurecia
E pegava a se espojar.
12
E quando ele ia pegar
O moleque pela mão,
O danado “se escapava”
Sem haver explicação.
Aí Bibi percebeu
Que aquilo era uma “visão”.
13
Mas não se intimidou não.
Pegou a vociferar:
- Ô moleque “maluvido”,
Vai procurar algum lar
Onde tenha outro fantasma
Com quem tu “possa” brincar!
14
Porém, foi só terminar
A tal reivindicação,
Pra’aparecer mais assombro
Correndo em meio ao salão
E bagunçando o fichário
Que tem na recepção.
15
Bibi decidiu então
Correr atrás pra’evitar
Que derrubassem os livros
E as cadeiras do lugar
E quebrassem o birô
Pra’ele ir depois consertar.
16
Começou a se enraivar.
Restou uma assombração.
A que tinha dado início
A toda a agitação.
Foi pegá-la e ela mudou
De aspecto a sua feição.
17
Feioso igualmente o “Cão”
E co’uma voz de assustar,
A criança se virou
E “começou gargalhar”,
Que Bibi quase “cagou-se”
Quando “ouviu ela” falar.
18
Correu pra se resguardar
Da fúria daquele “Cão”,
Só que tropeçou em algo.
Meteu a cara no chão,
“Se arrastou”, clamou, gemeu,
Mas não achou salvação.
19
Uma “acaveirada” mão
Pressionou-lhe a jugular.
Outra agarrou seu calção,
Puxando o seu calcanhar.
E ele se viu apertado
Sem nem ter voz pra gritar.
20
Era a caveira a fungar
E ele a’estrebuchar no chão.
O ruim era que o mau hálito
Da boca da’assombração
Inda era mais assombroso
Que a sua própria feição.
21
Quase sem ar no pulmão,
Bibi, baixinho, a falar,
Começou aconselhando
O vulto e ele, ao pensar,
Resolveu ouvir as dicas
Que ele queria lhe dar.
22
- Meu filho, pegue a usar
Logo após a refeição
Um fio dental, uma pasta
Para higienização
Da boca, porque a sujeira
Prejudica a dentição.
23
E a vaidosa assombração
Deu-lhe razões sem cessar.
“Lhe disse” que procurou
Dentistas pra se tratar,
“Só que no mundo dos mortos
Ninguém quer mais trabalhar!”
24
Nunca mais quis assombrar
Aquele nobre ambiente.
E adivinha a razão
De ela ficar tão valente...
Tudo aquilo era por causa
De uma dorzinha de dente!